Esperança Garcia

esperanca_garciaApesar de estar na memória do povo piauiense, especialmente a parcela da população marcada pela luta e conquista de direitos, pouco se sabe de modo preciso sobre a vida de Esperança Garcia e nada sobre os desfechos causados pela sua carta escrita em 06 de setembro de 1770.

Para o Prof. Dr. da UESPI/ UFPI, Élio Ferreira de Sousa, que estuda a temática do negro na literatura, “Esperança Garcia é uma exceção, porque era proibida a leitura para escravo; quem fosse flagrado ensinando escravo a ler era preso e/ou processado. Ela escreveu a carta um ano depois que os jesuítas, de quem era escrava, foram expulsos do Brasil por Marquês de Pombal. Esperança Garcia foi levada à força da Fazenda Algodões, perto de Floriano (Piauí), para uma fazenda em Nazaré do Piauí. Ela conta que juntamente com o filho eram torturados e espancados; que o feitor a peava, como animal, e que uma vez caiu do penhasco e quase morreu, estando amarrada; que foi proibida de batizar o filho e de se confessar, assim como suas amigas. Na condição de escrava, usou a questão da religião como estratégia para que seus opressores fossem punidos, porque a religião oficial era a católica”, ressaltou o pesquisador, acrescentando que era comum nas fazendas locais, os negros fazerem levantes contra os desmandos, já naquela época.

Esperança Garcia viveu na região de Oeiras na fazenda de Algodões, a mais ou menos 300 km de Teresina. Esta fazenda, juntamente a outras dezenas de estâncias, pertencia à Inspeção de Nazaré, onde é hoje o município de Nazaré do Piauí. Apesar de sua importância histórica, não se sabe quase nada sobre sua vida. Esse descaso da sociedade é consequência principalmente de sua condição de mulher, negra escravizada. Porém ela se destaca por ter sido corajosa a ponto de escrever uma carta ao governador do Piauí, Gonçalo Lourenço Botelho de Castro, denunciando os maus tratos sofridos por ela, seus filhos e companheiras. A carta é datada de 06 de setembro de 1770.

Tomando como ponto de partida sua carta, alguns escassos documentos relacionados e o próprio contexto do Piauí Colonial, reproduzimos as informações prestadas pelos pesquisadores, o antropólogo Luís Mott e o historiador Solimar Oliveira Lima acerca da história de vida de Esperança Garcia.

Afirma-se que a carta original está em Portugal, e uma cópia foi descoberta no arquivo público do Piauí peloescravas benguela pesquisador e historiador Luiz Mott em 1979: “Outra minha importante descoberta arquivística foi um pequeno documento, uma única página escrita à mão, todo cheia de garranchos com muitos erros de português: trata-se de uma petição escrita em 1770, por uma escrava do Piauí, Esperança Garcia. Trata-se do documento mais antigo de reivindicação de uma escrava a uma autoridade. Documento insólito! Primeiro por vir assinado por uma mulher, já que mulher escrever antigamente era uma raridade. As mulheres eram vítimas da estratégia de seus pais, mantê-las distante das letras, a fim de evitar que elas escrevessem bilhetinhos para os seus namorados. Segundo, por se tratar de uma petição escrita por uma mulher negra.”(Mott).

Um inventário realizado no período do Fisco, em 1811, registra 761 trabalhadores escravizados nas fazendas, sendo 318 na inspeção Canindé, 247 em Piauí e 196 em Nazaré. A fazenda Algodões contava com 26 escravizados. A fazenda possuía ainda 74 cavalos e 3 mil cabeças de gado vacum, sendo avaliada em rs. 11.637$240 (Onze contos, seiscentos e trinta e sete mil, duzentos e quarenta réis). Em Algodões, além da casa do criador e senzalas, ficava a administração central da inspeção de Nazaré, instalada nas terras da Fazenda, sendo denominada “Residência” onde habitava o inspetor. Na Residência de Nazaré, além da casa de moradia e currais, havia uma capela “e seus pertences” e 16 escravizados que moravam em senzalas. As moradias dos escravizados nas fazendas da Nação eram apartadas das casas dos inspetores e criadores e se constituíam, na verdade, em casebres ou ranchos, alguns sem paredes.

Os trabalhadores das fazendas que formavam a inspeção eram requisitados pelo inspetor para prestarem serviço na Residência que era, na verdade, uma fazenda. Os trabalhadores, além dos serviços domésticos, eram responsáveis pela lida no campos e roças, havendo um acentuado desgaste dos cativos. A expectativa média de vida da população escravizada, em especial no período do Fisco, era relativamente pequena, em torno de 35 anos, o que significava uma alta taxa de envelhecimento. Considerando que com 30 anos o trabalhador já era um “velho” ou de “pouca serventia”, pode-se inferir o quanto era imprescindível às fazendas o processo de reprodução vegetativa.

Em Algodões, segundo um manuscrito que traz a relação da população escravizada de 1778, encontram-se 18 trabalhadores, o mais velho possuía 73 anos e o mais novo, 1 ano. Do total, sete trabalhadores possuíam mais de 30 anos e seis menos de oito anos.

Os trabalhadores escravizados nas fazendas viviam muito mal. Um levantamento nas inspeções Piauí e Nazaré em 1854 indicava os problemas de saúde nas fazendas. Era comum entre as crianças doenças como sarampo, varíola, catarrão e “brolho na barriga” (provavelmente vermes). Entre as mulheres, as referências eram: “doença de moléstia crômica”, “doente de gálico” (sífilis), “padece do estômago”, “doente de hidropisia” (barriga-d’água), “doente da gota”, “doente de fístula na parte posterior”, “doente de apoplexia” ou “do ar” ou “estupor”, além de “aleijões nas mãos”, “doença nos olhos” e cegueira. Os homens eram descritos como: “rendido”, “doente do peito”, “doente da gota”, “doente de frouxidão nos nervos”, “doente do espinhaço”, doente de “fistulas nos escrotos”, “doente da perna”, dentre outras doenças que, segundo o presidente da província, em 1867, eram decorrentes dos arriscados serviços praticados.

Os escravizados moravam em casas “de palha”, chamadas senzalas. Nas Residências, as senzalas eram próximas da moradia do inspetor. Já nas fazendas, eram dispersas na propriedade. Documentos indicam que uma senzala agregava trabalhadores com laços de parentescos, um núcleo familiar. As casas ou senzalas não passavam de um rancho com cobertura e paredes feitas de palhas ou taipas, quase sempre incompletas. Apresentavam pouca ou nenhuma divisão: um vão servia de porta e não possuíam janelas. Piso de “chão batido”, não raro virava lama no inverno chuvoso. Dormiam “feitos índios”, em redes tecidas pelas trabalhadoras ou esteiras e recebiam “cobertores” das autoridades, feitos com o mesmo tecido fornecido para os “suadouros” dos cavalos.

Os escravizados andavam quase nus, com pouca vestimenta e tudo “muito gasto e velho”. Os homens raramente portavam camisas; desde crianças usavam ceroulas ou calças. As mulheres vestiam saia e blusa. O tecido era fabricado pelas tecelãs das fazendas e como a produção era reduzida no século XIX, as autoridades forneciam algodão “rústico da terra” ou “riscados” ou “sacos” que acondicionavam farinha. Os escravizados alimentavam-se mal. Embora plantassem feijão e milho, a comida rotineira era basicamente carne de gado seca e farinha.

Uma característica das fazendas nacionais era a presença de moradores livres e suas intensas relações, nem sempre harmônicas, com os escravizados. Em geral, estes moradores eram acusados, pelos inspetores e criadores, de praticarem desordens. Duas eram as reclamações: o não pagamento de nenhuma renda pelo uso da terra e os relacionamentos amorosos com as trabalhadoras no que resultou em um elevado índice de mestiços denominados mulatos e “cabras”. Na inspeção de Nazaré, em 1867, em uma relação de 61 trabalhadores, apenas 8% eram considerados pretos, o que implica 82% com peles mais claras. Segundo os administradores das fazendas, a mestiçagem resultava das relações – diga-se forçadas ou espontâneas – de negras escravizadas com homens brancos ou mulatos.

A violência sofrida pelas trabalhadoras parecia ser recorrente nas fazendas. Em 1776 o inspetor, juntamente com os criadores das fazendas da inspeção Piauí, foi acusado de abusarem sexualmente das trabalhadoras, separando-as dos maridos e castigando-as quando se negavam a manter relações sexuais.

Foi pouco antes, em 1770, que a escravizada Esperança Garcia, da fazenda Algodões, em carta enviada ao governador da capitania denunciara os maus-tratos sofridos na Residência de Nazaré, praticados pelo inspetor Antônio Vieira de Couto. O capitão a retirara de Algodões e a colocara em sua residência, passando ela a trabalhar como cozinheira.

Na carta, de 06 de setembro de 1770, Esperança Garcia relata graves abusos sofridos: espancamentos nela – “um colchão de pancadas” – e em um filho – “uma criança que lhe fez extrair sangue pela boca”

Outro documento, de autor desconhecido e não datado, que acompanhava a carta de Esperança Garcia, esclarece alguns pontos sobre esta situação, reforçando o relato de violência sofrida por ela. Segundo Mott, este outro documento pode tratar-se de alguém que escreveu em nome dos escravos desta inspeção. Segue o inteiro teor do documento:

“Conta que dou a V. Sa. da residência de Nazaré, que é procurador o Capitão Antonio Vieira do Couto: (ele) tirou uma escrava chamada Esperança, casada, da fazenda de Algodões e não tem concedido tempo algum para a dita ir fazer vida com seu marido, vendo apertada com vários castigos tem fugido por várias vezes e o dito Capitão tem posto tão tímida a dita em forma uma quinta feira deu tanta bordoada com um pau e com ela no chão e depois jurou que havia de amarrar dita escrava se arretirou com dois filhos, um nos braços, de 7 meses e outro de 3 anos; até o presente não tem tido notícia dela e tem feito umas correias para castigar e diz que veio para ensinar os ditos escravos. Tem mostrado como os escravos tem experimentado que tem clamado contra o dito procurador até que foi ouvido da intercessão de V. Sa. veio uma portaria até a fazenda da Serrinha e como tem um padrinho que orou para o dito Procurador não teve (realização) do seu mau instinto, em forma que aperta os ditos escravos (que) não têm descanso. Todas as noites trabalham sem descanso algum, sendo preto velho e se fora moço, tudo podia a mocidade suportar. Como no sustento do dito, muito mal que não come farinha que a fazenda faz, porque serve para ajuntar com a que o dito procurador faz para seu negócio, do que pedindo licença o intercessor de V. Sa., não quis consentir em forma alguma do que contra a ordem, dizendo que era dos seus escravos. Que estorva os ditos escravos para o seu serviço em socar mamona, em desmanchar mandioca e outro serviço. Até tirou algumas escravas para fiar algodão e diz, como no ano passado, que era para (trabalharem) na fazenda e fez redes para seu negócio e não tem dado cumprimento algum na sua obrigação, não tem corrigido as ditas fazendas faltando a sua obrigação, tendo o criador da fazenda Tranqueira certas rezes em particular (e) querendo dar esta conta a V. Sa. Como pai e Sr. põe os olhos de piedade em ver estas lástimas porque não tem quem fale por estes mais que a misericórdia de V. Sa. abaixo de Deus, pois os ditos escravos não tem outro jazigo senão o amparo de V. Sa.”

CARTA ORIGINAL:
“Eu sou hua escrava de V. Sa. administração de Capam. Antº Vieira de Couto, cazada. Desde que o Capam. lá foi adeministrar, q. me tirou da fazenda dos algodois, aonde vevia com meu marido, para ser cozinheira de sua caza, onde nella passo mto mal. A primeira hé q. ha grandes trovoadas de pancadas em hum filho nem sendo uhã criança q. lhe fez estrair sangue pella boca, em mim não poço esplicar q. sou hu colcham de pancadas, tanto q. cahy huã vez do sobrado abaccho peiada, por mezericordia de Ds. esCapei. A segunda estou eu e mais minhas parceiras por confeçar a tres annos. E huã criança minha e duas mais por batizar. Pello q. Peço a V.S. pello amor de Ds. e do seu Valimto. ponha aos olhos em mim ordinando digo mandar a Procurador que mande p. a fazda. aonde elle me tirou pa eu viver com meu marido e batizar minha filha q.
De V.Sa. sua escrava Esperança Garcia”
CARTA TRADUZIDA:
“Eu sou uma escrava de V.S.a administração de Capitão Antonio Vieira de Couto, casada. Desde que o Capitão lá foi administrar, que me tirou da Fazenda dos Algodões , aonde vivia com meu marido, para ser cozinheira de sua casa, onde nela passo tão mal. A primeira é que há grandes trovoadas de pancadas em um filho nem, sendo uma criança que lhe fez extrair sangue pela boca; em mim não poço explicar que sou um colchão de pancadas, tanto que caí uma vez do sobrado abaixo, peada, por misericórdia de Deus escapei. A segunda estou eu e mais minhas parceiras por confessar a três anos. E uma criança minha e duas mais por batizar. Pelo que peço a V.S. pelo amor de Deus e do seu valimento, ponha aos olhos em mim, ordenando ao Procurador que mande para a fazenda aonde ele me tirou para eu viver com meu marido e batizar minha filha.
 De V.Sa. sua escrava, Esperança Garcia”

Esperança Garcia não seguiu imediatamente para a fazenda Algodões após a denúncia. Deve ter se refugiado com a proteção de parceiros na mata próxima a Algodões, uma que vez que durante um tempo não se teve “notícia dela”.

Passados oito anos da denúncia e fuga (1778), pode-se, novamente encontrar Esperança Garcia mencionada em uma relação de trabalhadores de Algodões (Anexo I). Dentre os escravizados, havia um casal Ignácio e Esperança. Ele, um negro de Angola, de 57 anos; ela, crioula, com 27 anos.

Na relação aparecem também sete crianças. Supostamente, se estivessem vivos, a filha de Esperança Garcia poderia ser a crioulinha Paulinha, com nove anos. Quanto ao filho, temos duas possibilidades: Pedro, com 11 anos ou Manoel, de 13, que teria, neste caso, de fato cinco anos em 1770.

Esperança Garcia, quando escrevera a carta, possuiria 19 anos; aos 16 anos, parira o primeiro filho. É provável que tenha tido outros filhos, uma vez que no arrolamento aparecem muitas crianças e apenas uma mulher com idade reprodutiva – a viúva Domingas, já com 37 anos. Também parece certo que Esperança nascera em Algodões, quando pertencia aos jesuítas, e aprendera a escrever ainda criança, sob a tutela destes, que foram expulsos do Piauí em 1760, quando a escravizada tinha apenas 09 anos.

Esperança Garcia se perpetuou na memória do povo negro piauiense, inspirando movimentos sociais e gerando forças para implementação de mudanças e conquistas importantes. Estas forças vêm especialmente do poder de identificação entre sua pessoa e história de vida, ou o que dela se conhece, e o perfil do povo negro, minorias, remanescentes de comunidades tradicionais que lutam cotidianamente pela afirmação de seus direitos.

Considerando que a ideia de identidade e memória não é um conceito estável e contemporaneamente desterritorializado, Esperança Garcia precisa ser melhor conhecida como uma memória universal e identitária de todos e todas que se encontram empenhados na construção de novos paradigmas de mundo e de sociedade, alicerçadas em relações de igualdade, justiça social e respeito integral e irrestrito à dignidade da pessoa humana.

FONTE: http://culturadigital.br/cartaesperancagarcia/esperanca-garcia/